O propósito do Yoga – Thais Galliac

Yoga é Moksa. Moksa é libertação. Libertação que, neste contexto, tem uma explanação muito mais ampla e completa, e que significa descondicionarmos e desconstruirmos os padrões e hábitos que nos foram impostos e que nos serviram de exemplo desde o momento em que nascemos, em direção ao reconhecimento de que já somos intrinsecamente conscientes, livres e felizes.
Quando estamos começando a desenvolver nossas percepções de quem somos, das relações que temos e da própria vida, tendemos a acreditar que somos o que experienciamos, além do corpo e da mente que possuímos. Se, por exemplo, vivencio uma experiência ruim com meus pais e isso me leva a desenvolver um padrão de raiva e agressividade, passo a dizer que sou assim por conta do que me aconteceu.
Se não possuo muitos bens materiais sou menos feliz do que aquele que tem mais do que necessita. Se não me encaixo no perfil de beleza ostentado pela mídia, não me considero satisfeito e acolhido. E se vejo um modelo de vida sendo divulgado como o único possível e aceitável, sinto-me no dever e na obrigação de seguir esse padrão sem sequer questioná-lo.
Assim, vamos vivendo sem a consciência do que faz a criação existir e se mover, de quem realmente somos e do livre arbítrio que temos para escolhermos as atitudes e os valores com os quais percorreremos nossas vidas. Parece não haver tempo para olharmos para nós mesmos, pois tudo é realizado no automatismo e com o foco nas coisas externas.
Portanto, entender que o objetivo do Yoga é Moksa, e que Moksa não é uma experiência, mas sim o que É, torna-se elementar para seguirmos esse caminho inequivocamente e usufruir de suas ferramentas para mantermos esse reconhecimento sempre vivo e a compreensão de que quem experiencia as práticas da vida são os nossos veículos, e que somos, realmente, Aquele que observa suas transformações e aprimoramentos, contemplando e aceitando as coisas como elas são, a ordem de Isvara, que se revela como a Inteligência presente em tudo e em todos.
Vamos conquistando espaço para vivermos cada momento, saboreando e desfrutando de cada oportunidade, como um meio para nos conectarmos com nosso Ser, com as pessoas e com o mundo, sem que haja identificação. Assim, quando praticamos o Yoga à luz desse conhecimento, levamos, deliberadamente, uma atitude firme e graciosa, de verdade e não-violência às nossas ações.
Quando compreendemos a importância da disciplina e do entusiasmo em praticá-lo a cada instante, dentro e fora da sala de aula, atingimos a felicidade plena, ao sabermos que estamos agindo com equanimidade e discernimento. Dessa forma, nos beneficiamos integralmente e com honestidade das dádivas desta tradição, que, de fato, nos proporciona paz e clareza de espírito.
O Yoga nos revela a dimensão do Amor, quando refere-se ao coração como sendo a ponte que integra o corpo com o Ser, o limitado com o Absoluto. Finalmente, quando nos damos conta da grandiosidade do Yoga e de quem verdadeiramente Somos, vivemos nosso processo de autoconhecimento com a determinação e o desapego necessários para nos mantermos em um caminho dhármico, que alinha de maneira sincera, coerente e amorosa nossos valores com os valores universais.
A partir disso, nos permitimos olhar para o bem comum com cuidado e generosidade, e – no caso daqueles que se sentem motivados a tornarem-se facilitadores dessa visão – a levar a sabedoria e o real propósito do Yoga àqueles que o queiram e, igualmente, aos que não conseguem acessá-lo.

Com a riqueza dos recursos e valores existentes nos ensinamentos e nas práticas do Yoga, podemos reconhecer o Ilimitado, presente em cada um de nós, em cada célula, em cada objeto manifestado e, com isso, nos estabelecermos nessa Consciência-Realidade-Amor, Satchidananda – que é a nossa verdadeira natureza – e relaxarmos e fluirmos e dançarmos a vida e seus mistérios a cada presente momento, a cada momento presente!

Thais Galliac
Instrutora do Yoga

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